Georgia M. Aoki Iema
Marly Michelini

Quando uma pessoa infectada toma o conhecimento de ser portadora do vírus HPV, a angústia justificada pela ignorância dos aspectos biológicos do vírus e da sua interação com o organismo, associada ao modo como o profissional transmite a informação, pode colaborar para ocorrer um stress emocional, por vezes desnecessário.

Uma situação específica como esta (o contágio pelo vírus HPV) pode provocar nos pacientes fantasias inconscientes na comunicação das suas idéias. Como conseqüência dessas fantasias, o paciente demanda de atos defensivos no processamento do conflito psíquico que foi gerado pela situação. As condutas defensivas podem ser compreendidas como “conjuntos de operações efetuados pelo ego operante os perigos procedentes do id, superego e da realidade exterior, que intervém, normalmente no ajustamento, adaptação e equilíbrio da personalidade”. (KUNSNETZOFF, 1982, p.208). Necessário enfatizar que essas defesas inconscientes não são, necessariamente de cunho patológico.

Assim, o que fundamenta o processo defensivo é um conflito psíquico causado pela situação de angústia em que o indivíduo se encontra perante as excitações, por exemplo: reação a um perigo; ameaça; etc., que não consegue dominar. Portanto, não existe vida sem conflitos, nem tão pouco vida do aparelho psíquico sem defesas.

O sentimento de culpa, associado por esta situação de contágio do vírus, pode ser uma manifestação dos processos de defesa do paciente, advindo da necessidade inconsciente de punição ou de castigo. Dessa forma, a situação dolorosa é vivenciada de forma primitiva, ou seja, elaborada da mesma forma que uma criança o faz, por meio de fantasias. Quando o paciente opera defensiva e inconscientemente o conhecimento da sua contaminação, sofre tanto a ação da informação, desencadeando afetos que causam a angústia; como as defesas mobilizadoras por parte inconsciente do ego.

Os mecanismos de defesa funcionam como um aspecto auto-estabilizador para reequilibrar a homeostase do indivíduo. Considerando pacientes com personalidade reputada como “normal” adaptada à estrutura do tipo neurótica e uma certa “normalidade” adaptada à estrutura do tipo psicótica, fica demonstrado, na observação cotidiana da clínica, que tais personalidades podem, a qualquer momento de sua existência, entrar numa patologia mental, ou seja, um estado passageiro em momentos que ocorreram incidentes afetivos imprevistos. Isto é observado em ocasiões provisórias, por exemplo, com respeito a um parto; um acidente corporal ou uma intervenção psíquica.

Desta maneira, as transitórias modificações do esquema corporal são capazes de mobilizar importantes descargas pulsionais (forças instintivas que se encontram no nível biológico) e ansiosas que permanecem completamente fora de qualquer estruturação psicótica. Entretanto, as reações de defesa que os indivíduos utilizam quando recebem a notícia de serem portadoras do vírus HPV, portam-se por vezes a partir de recusas, silêncios, negativas, hesitações, ou até mesmo fobias, ansiedades e medos de modo geral. Será, portanto, valioso considerar no diagnóstico do paciente a situação em si e todas as variáveis psicológicas apresentadas por ele, como elementos extremamente importantes no processo. Pois o que é freqüentemente observado é a insistência do paciente em revelar o sofrimento físico mais do que a consciência do sofrimento psicológico, para não admitir a angústia ou depressão, frustração ou revolta que isto possibilita.

Pressupondo que uma pessoa em condições habituais movimenta-se sob o predomínio de uma ou algumas estruturas psicológicas possíveis, a quantidade de estruturas e subestruturas interagindo com o profissional pode ser das mais variadas e complexas. “Uma doença qualquer não é uma coisa. É uma estrutura muito mais complicada e temos que tentar ver, funcionalmente, essa complicação” (BLEGER, J-op.cit, p. 309).

A partir disso, mostra-se relevante conhecer quando um paciente está agrupado numa estrutura neurótica ou uma estrutura psicótica, o que poderá auxiliar o profissional a estudar e diagnosticar o sujeito a partir de um conjunto de conceitos que funcionarão como parâmetros de referência para precisar as intervenções e o prognóstico.

Um fator importante a ser considerado é que tais pacientes possam ter dificuldades de aceitar sua parcela de responsabilidade na criação da doença, apresentando dificuldades em receber ajuda pela fragilidade de sua estrutura psicológica, tornando-se mais infelizes, mais desesperados ou mais raivosos do que antes.

São indivíduos que apesar de insistirem mais firmemente em revelar o seu sofrimento físico do que demonstrar certa consciência do sofrimento psíquico, com a frustração e perplexidade que a experiência lhe causaram; usualmente não apresentam demanda suficiente para um auxílio psicoterápico para ajudar a lidarem melhor e até mesmo preventivamente contra outras situações de doença que por ventura ocorrerão.

Realmente, se não houver reconhecimento do sofrimento psicológico, tais pacientes não serão bons candidatos para um tratamento psicoterápico, mesmo que outras pessoas demonstrem a necessidade que eles têm de um auxílio terapêutico. Porém, não havendo tal reconhecimento, a consciência pela prevenção da saúde, utilizando o preservativo como método de proteção às doenças sexualmente transmissíveis, seria um fator importante para pelo menos amenizar a proliferação da doença e assim evitarem um desequilíbrio pessoal e afetivo-relacional.

A incidência do HPV pode ser observada a partir de um levantamento realizado junto ao Centro de Referência DST/AIDS da Freguesia do Ó, na cidade de São Paulo. Pesquisa de HPV dos Usuários do Centro de Referência DST/AIDS da Freguesia do Ó Para a realização da presente pesquisa, foram utilizadas as fichas de acolhimento, onde contêm todos os dados necessários para a triagem e encaminhamento da população que procura o Serviço. Separando dos casos de portadores HIV/AIDS sem as demais DST, chegamos ao seguinte quadro.

Como é possível observar na Tabela 18.1, o HPV corresponde à 46,20% dos casos de Doenças Sexualmente Transmissíveis atendidas na unidade.

Para obter um perfil comportamental dos pacientes portadores de HPV, foi realizado um levantamento dos prontuários para obter uma amostragem de pacientes, obtendo-se os seguintes resultados.

A partir dos resultados expostos na Tabela 18.2, pode-se concluir que a principal causa da transmissão do HPV é a falta de utilização de preservativo, ao qual a grande maioria dos pacientes apresentam persistente resistência em utilizá-lo, apesar das constantes campanhas ao uso do preservativo. A introjeção da necessidade do uso do Preservativo ocorre com maior eficácia nos adolescentes que em pacientes adultos e idosos, cujo hábito de não usar já está cristalizado em seu universo comportamental. É encarado por essas faixas etárias como um objeto estranho, um intruso no ato da relação sexual, um obstáculo ao prazer, gerando a famosa frase “chupar bala com papel “. Não associam o uso do preservativo como um ato de preservação da própria vida e saúde física, evitando não só a gravidez, mas a transmissão de diversas doenças, inclusive a AIDS. Já o adolescente vem recebendo orientação desde muito cedo nas escolas, tornando habitual a utilização do preservativo no início de sua vida sexual.

O contato com diversos parceiros em vivência extra conjugal, vinculado ao não uso de preservativos foi um dado conclusivo na amostragem. A promiscuidade prolifera a transmissão, levando para dentro de “casa” o que o parceiro ou parceira adquiriram na “rua “.

É muito raro, mas há casos de transmissão por contato com roupa íntima, como foi o caso de alguns adolescentes que utilizaram roupa íntima suja de irmão portador de HPV ou amigo.

Felizmente, a amostragem demonstra pequena porcentagem de co-infecção com o HIV/AIDS, assim como nas pacientes gestantes. Enfim, é preciso haver maior conscientização do uso do preservativo, introjetar esse hábito no universo comportamental da população como sinônimo de Saúde e Vida, que de forma alguma impede o prazer, por ser utilizado de forma lúdica e erótica, acentuando a gama de prazer.

É importante salientar que o exame do Ginecologista e Urologista deva acrescentar o exame anal, que muitas vezes passa desapercebido por estes especialistas, podendo haver agravamento do HPV Anal.

Referências Bibliográficas

1. Bergenet, Jean- A Personalidade Normal e Patológica. Artmed, Porto Alegre, 3º edição,1998

2. Heimanm,P. Rev. Bras.Psican.; 11:93,1977 – Dinamismos das Interpretações Transferenciais

3. Klein, M.(1991)- Desenvolvimentos da teoria e da técnica/editado por Elizabeth Bott Spillius; tradução de Belinda Haber Mandelbaum.- Rio de Janeiro: Imago., 1991

4. (Nova Biblioteca de Psicanálise); Conteúdo: v.1.Artigos predominantemente teóricos-v.2.Artigos predominantes técnicos.

5. Maldonado,J.L